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Vira Bicos.



Todos os conhecem e são facilmente identificados. Excepto quando estão de costas ou a dormir.
Não estou aqui para gozar ou brincar com a deficiência de ninguém, mas existem mínimos de tolerância.

Só um aparte, eu desconfio que o Pedro Abrunhosa pertence à família, ou então é parvinho por andar com óculos escuros à noite.
- Ó Márcio, mas é para ser diferente !
Se é para ser diferente, acho que a ideia é boa. Assim de repente não encontro outra melhor.
Todos sabem que ainda posso vir a ter um filho assim, mas há situações que não podem ficar na prateleira da minha memória.
Com os chamados “Vira Bicos” normais, já se torna difícil de saber, qual é que é o olho que realmente está a olhar para nós
Aliás, acho que a expressão : “ um olho no Burro outro no Cigano” nasceu certamente de um zarabuca!
Também dá um jeitão para quem queira atravessar as estradas aqui em Luanda. Se eu pudesse, punha um olho para o lado esquerdo e outro para o lado direito, e aí sim, atravessaria a estrada. Podem aparecer de qualquer lado.É incrivel! Aliás, os atropelamentos, são uma das maiores causas de morte nesta cidade. Nunca vi nenhum estrábico ser atropelado em Luanda. São as vantagens.
Eu tinha um magnífico truque para não me desorientar com as órbitas destes meninos. Até conhecer o Jaime, colega de profissão. Quando estava a desesperar fixava os meus olhos na cana do nariz, e a partir daí sentia-me a salvo.
O Jaime estragou tudo. Parece um camaleão o raio do homem. Está a falar comigo e a olhar para o meu cotovelo direito !
Eu já lhe disse :
- é pá ó Jaime, orienta a bússola pá ! Já pensas-te que poderás estar na profissão errada ? vai para detective pá !
Imagina :
- O senhor está a olhar para mim ?
E tu respondes :
- eu ? eu não, estava a olhar precisamente para pessoa que está atrás de mim !
Como já disse, não estou aqui para gozar com a deficiência de ninguém.
Aliás, eu tenho um irmão que também é apanhadinho, coitado !
Só eu sei o que sofro quando estou com ele. As conversas são sempre difíceis e penosas.
Confesso que já o evito.
Já não tenho a paciência de outrora.
E depois baba-se e tudo!
Também manca de uma perna.
E é estupido.
No fundo o cérebro já tropeça por tudo e por nada.
Eu não queria utilizar esta palavra, mas ... é um Deficiente !
A semana passada, dizia-me ele :
- Ó mano, ó mano
- Sim, mongloide !
- Olha. Ontem tirei esta foto, vê lá o que é que achas !

- Mágnifica Carlos, muito original. O que é que simboliza ?
- Simboliza o céu azul com as gaivotas e os elefantes !
- Queres que eu te tire uma ?
- Não deixa estar, fica para a próxima !
- hó vá lá, ou então vamos jogar às escondidas ou à apanhada !
- Pronto, tira lá !
- Mete outra cara, uma gira. Boa, essa !


- É pá ficas-te buéda da Baril.
E depois diz-me:
- hó mano, hó mano, vamos jogar ao pião ?
- O mano tem que ir embora, fazer o jantar !
- mas são onze da manhã !
- Pois, mas como as tartarugas fazem o ninho, se calhar é melhor ir já. O que é que achas ?
- Pois é. Tens razão. Manda beijinhos ao Rato Mickey !

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.