Avançar para o conteúdo principal

Sinais


Hoje tive a oportunidade de percorrer um caminho novo, que só por si já valeu este texto.
Para quem viaja pela estrada da Samba, a caminho da cidade de Luanda, tem a oportunidade de apreciar da mais alta tecnologia desenvolvida em sinais de trânsito.
Os semáforos no final desta estrada são temporizados. Todos os condutores sabem, com precisão, quantos segundos faltam para o sinal passar a vermelho ou a verde.
O sinal funciona lindamente, nenhuma luz fundida, tem todas as cores, elas acendem uma de cada vez, nada de misturas, e está numa posição estratégica para que todos os condutores consigam visualizar, mesmo a longa distância.
Tudo parece perfeito demais. Tão perfeito, que não poderia ficar assim.
A cerca de 10 metros do sinal temos um Polícia. Por si só, estar um Polícia onde quer que seja, já é sinal de perigo. Ao pé de um sinal de trânsito a situação avizinha-se ainda mais perigosa.
Este senhor, está ali simplesmente para contradizer toda a informação minuciosa e precisa, que o nosso amigo sinal de trânsito tem para nos dizer.
O sinal está verde, ele manda os condutores pararem. Se está vermelho ele manda os condutores avançarem.
Ao que parece, o motivo é pelo simples facto de que o Policia consegue “escoar” melhor o trânsito do que o nosso amigo sinal.
Com a sua capacidade de raciocínio, que lamentavelmente o sinal não tem, avalia a situação em cada momento e de uma forma muito eficaz actua na tentativa de resolver o trânsito intenso.
Realmente, tudo parece ter pernas para andar.
A chatice é que a malta, na minha opinião estupidamente, não sabe, ou por vezes não repara, quem é que na verdade está ali a ditar as regras. Parece simples a meu ver…onde está um Polícia, sem duvida que é ele que manda. Então a situação fica um caos e ninguém sabe o que fazer.
O raciocínio das pessoas anda à volta disto: “O sinal está vermelho vamos parar. É pá, mas está ali um Policia a mandar avançar. Mas o sinal continua vermelho. Olha, ao que parece, o policia está dizer que o sinal tem a mania que manda… mas espera que o sinal está vermelho e é muito maior que o policia! É pá mas o gajo está com o apito na boca, com um ar ameaçador e a fazer gestos frenéticos como que a modos zangado com a situação!”

Eu continuo na minha, existem mísseis que andam por aí à boa vida e se calhar já era hora de por esses meninos a fazer qualquer coisa.

Comentários

  1. Epá eu sei muito bem onde colocava pelo menos meia duzia desses meninos... mas depois lá se ia o chuva lenta pró boneco...

    ResponderEliminar
  2. Isso lembra-me os documentários que passaram na RTP2 na 5ª e 6ª feira passadas, dedicados a Angola. Vi apenas a parte final de cada um deles, mas gostei particularmente do de 6ª feira "É DREDA SER ANGOLANO" (http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=26064&e_id=&c_id=8&dif=tv), com uma prespectiva humurística da vida em Luanda. Só para destacar a cena final em que se vê o processo de "gasosamento" a um polícia, enquanto outra mulher polícia convive alegremente dentro de uma "Iasse" com o candongueiro que anteriormente ia "multar". E termina dizendo "se tivesse sido a um branco ainda era mais engraçado...". Muito bom!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.