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Escrito nas profundezas


Sou uma pessoa envergonhada à minha maneira. Imagino que vocês o sejam à vossa. Pelo menos assim oriento e movo o meu mundo.
Isto para dizer que ninguém deveria sentir vergonha por se considerar uma pessoa envergonhada.
Também sou carrancudo, tem dias que não me aturo a mim próprio. Um mau feitio do pior, qualquer coisa que me digam, que seja menos simpática, e o meu sistema tropeça e começa a falhar.
Tenho dias animados, outros festivos, alguns tristes, poucos com frio porque estou em Angola mas por vezes consigo a plenitude porque sinto o que tenho que sentir.
Já me questionei sobre o que sentia em determinados momentos. O mais flagrante por não perceber a triste e profunda depressão que me agarrou pelo calcanhar. Aquele do Aquiles. Não tenham pena porque conheci a tristeza como poucas pessoas se podem gabar de a ter conhecido. Não foi uma tristeza qualquer: Não foi uma desilusão ou uma tragédia mas uma tristeza específica por ser tão generalizada e sem motivo aparente. Aparente ou nem tanto assim, porque tudo passou sem certezas. Também deixei de as exigir por saber que estas seriam buscas solitárias e com sentido camuflado.

Qualquer comprimido, mesmo que fosse só farinha, dado pelo meu psiquiatra e eu já me sentia melhor. É verdade já frequentei um Psiquiatra. Deve ter sido dos momentos de maior lucidez que até hoje a minha vida conheceu. Ter a noção que estava num Psiquiatra e conseguir de alguma maneira ouvir os meus próprios problemas foi qualquer coisa de muito especial.
Ele disse que eu não era normal e eu disse-lhe o mesmo. Não gostei dele e ele não gostou de mim.
Por portas e travessas muito ficou por dizer porque assim o quisemos.
Porque o Psiquiatra não era eu.
Finjo as vezes que sou obrigado a fingir. Foi com essa certeza que saí por porta fora.
A menos que esteja na brincadeira:
- Olha lá, sabes que eu faço de tudo para te ver bem e feliz?
- A sério?
- Não, estava a brincar.


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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.