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SOLUÇÕES RADICAIS (DO AMOLADOR AO MOUNTAIN SONG)

Por vezes os sentimentos menos bons e negativos, como a tristeza ou a raiva, podem ser inspiradores e engrenagens para um patamar superior. Normalmente é na fossa, e no meio do esterco, que o mundo nos obriga a sermos criativos. Não é o meu caso até porque nestes momentos a minha personalidade encarcera por completo qualquer capacidade que eu, supostamente, possa ter de criação. Mas voltando à vaca fria, uma das situações que sempre me irritou e me tirava do sério era a gaita do amolador. Esta gaita tinha o efeito de me enervar e quase sempre me obrigava a parar o que eu estava a fazer para ir à janela e, para além de desejar a morte instantânea ao tipo, constatar quase sempre o mesmo: Ninguém afiava o que quer que fosse naquele homem, que ia com uma espécie de roda de bicicleta enquanto assoprava uma gaita que reproduzia uma repugnante melodia que me entrava pelos ouvidos como um trovão. O tempo veio dar-me razão e esta raça foi extinta. Aquela sonoridade era para mim risível e semelhante a essa banda mítica de U2 que o meu irmão ouvia incessantemente e que me agoniava a cada acorde. Nunca gostei de U2 e o facto de as pessoas sempre pensaram o contrário, fez com que eu passasse a detestar. Parece que é obrigatório gostar. Mas eu, ao contrário destes extremistas de direita, aceito que as pessoas gostem de um ” Sunday bloody Sunday” ou até mesmo de um “With or without you” desde que utilizem fones nos ouvidos. Não têm que mostrar ao prédio inteiro que têm mau gosto. A minha vizinha é um desses casos e enquanto aspira a casa meteu na cabeça que o Bono tem que a acompanhar e ainda por cima aos berros. O homem com aquela voz de gaita de amolador já se intrometeu por demais na minha vida. Continua, passados estes anos todos, a achar que consegue a simpatia dos meus tímpanos. Eu adoraria que isso acontecesse até para que eu pudesse ter alguma paz de espirito. Mas já arranjei uma solução. É uma solução radical (confesso) mas acredito que possa ser genial. Até tenho um vídeo exclusivo para que vocês possam dar a vossa opinião. Todos os sábados em minha casa fazemos uma reunião de amigos e assim que a vizinha começa a aspirar a casa, fazemos a nossa magia. Ora vejam:




Comentários

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.