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MUDAR É DIFICIL, NÃO MUDAR É FATAL

Demos um ar renovado a este espaço e olhem que giro que ficou! Fizemos bem. Somos daqueles que achamos que tudo, se assim for possível, merece uma mudança. Para nos olharem da mesma maneira mas de um modo diferente. Tudo aborrece se todos os dias estiver igual. Mudar uma simples coisa do lugar faz com que tudo à volta fique diferente. Já não está da mesma maneira. Aquela jarra antes não estava do lado esquerdo da santinha vermelha feita em cera. Agora está do lado direito e mais escondida para trás. Já não é o elemento principal. Passou a ser uma simples peça cerâmica num papel secundário. É triste – uma vida toda a ser a protagonista. Todos reconheciam a sua imponência mas os rumores já não se deixam agarrar. Já todos sabem, e comentam, com uma tristeza profunda carregada de malicia: «Sabes quem é que caiu em desgraça?», perguntam com ironia. De seguida dão a resposta com um sorriso interior que não conseguem disfarçar «A jarra que estava à frente da santinha vermelha feita em cera!» As pessoas anseiam uma mudança que seja dramática na vida dos outros. Mas não é este o caso. Nós aqui mudamos e não tiramos o mérito ao belíssimo aspecto que tínhamos anteriormente. Mas o seu tempo terminou. Não há que esconder isso e quando se chega perto do fim é arrasador. Eu vejo os mais velhos e tenho um profundo respeito e admiração. Deve ser dificílimo ver o fim mais perto. Mas não há volta a dar e o que nos move é a esperança de um dia lá chegar com alguma dignidade. Não precisaremos mais do que alguém que goste de nós, alguém que nos venha visitar. E se vier por gosto acaricia-nos o coração.

Comentários

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.