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Caralho e Foda-se

Certamente já discutimos e falamos aqui de quase tudo. Menos de coisas inteligentes e com importância, mas também não é para isso que alguém pisa estes terrenos. Mas não falámos do Rui e o Zeca. Ora, o Rui é um encarregado de construção civil típico – De camisa aberta até ao umbigo, com um fio de ouro com um crucifixo a baloiçar, que puxa a gosma com algum brilhantismo, de voz colocada, sempre com uns decibéis acima do que é normal, e com as duas palavras fundamentais para por qualquer obra a andar: Caralho e Foda-se. Sem elas, dificilmente, nesta categoria, alguém tem sucesso. Parece que toda a equipa não se mexe se não ouvir um “ Foda-se eu já te disse…” ou um “Cum caralho, é mais para a esquerda” Então, o poder das duas juntas, atrevo-me a dizer, que não se encontra em nenhum tipo de discurso de motivação. Se procurarem, vêem que não há nada que se equipare a um “Foda-se, cum caralho vamos a andar com isto!”
Se for um homem do Norte, então, só não temos a perfeição por causa de duas palavras: SEMPRE e MESMA. Ora vejamos “Filho da puta, foda-se, é SEMPRE a MESMA merda!” Isto pode parecer ofensivo, mas na verdade é dos maiores elogios que se pode ouvir. Quer dizer que somos notados, não passamos despercebidos e isso é fundamental para mantermos o nosso posto de trabalho. Mas voltando ao Rui, ele tem um arma letal para destronar qualquer concorrência. Ninguém poderá sequer almejar o trono, nem mesmo um homem do norte. O Rui tem o Zeca. Um papagaio que o acompanha sempre. É verdade que o animal ainda não fala, porque ainda é novo, mas será fácil de imaginar, tal como a um filho que depressa se precipita balbuciando “Papá” e “Mama”, quais serão as primeiras palavras deste nosso amigo Zeca. Claro está o “Caralho” e o “Foda-se”. A partir daqui o céu é o limite para esta dupla que se apresenta terrível e num patamar muito acima da restante concorrência. Certamente, em breve, trarei mais notícias destes nossos amigos.
Estaremos todos a torcer para que tenham sucesso. 

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.