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Uma história inspiradora


Isto é uma história inspiradora, cheia de despertares luminosos para os vossos corações. Desde logo a personagem principal é um coelho branco, o que por si só demonstra alguma pureza e depois teremos um burro chamado Zé, que no fundo é o vilão desta história. A história começa de trás para a frente porque não a saberia contar de outra maneira. Portanto, e para que não haja a incerteza se esta história acaba bem ou não, posso-vos dizer que o coelho morre atropelado pelo burro Zé que vinha a puxar uma carroça carregada de feno. O coelho não tinha as patas da frente, não pensem que era alguma espécie de piada. Sempre se arrastou desde que nasceu. Nasceu assim, portanto. Antes de ser atropelado pelo burro Zé, o coelho tinha inúmeras actividades sociais. Desde ajudar ovelhas vitimas da ganância humana, chegando até, e só com as patas de trás, a ajudar tartarugas velhas a atravessar o riacho. Era um coelho inspirador por assim dizer. Todos o admiravam pela sua compaixão e força de viver. Mas nem sempre foi assim, o seu pai era um retornado da caça. Tinha sido vítima de inúmeras tentativas de caçadores ávidos, motivados por um desporto tão estupido como as touradas, mas de touros esta história não contempla embora muitas vacas se possam indignar. Portanto este coelho de duas patas teve uma educação rígida, à base de muita porrada e castigos severos, o que fez com que a sua revolta perante a vida se adivinhasse traumática e profunda. Pobre coelho que ao longo da sua vida passou por inúmeros obstáculos e mesmo assim era um motivador para quem tinha tudo na vida. Prova disso, e na altura em que o seu pai andava fugido por causa dos caçadores, este pequeno ser arrastou-se durante dias para ir visitar o seu amigo preguiça que passava por uma depressão profunda. Este preguiça tinha tudo mas com o tudo que tinha não sabia viver. Como sabem por vezes o que nos acontece, embora não seja necessariamente o que desejamos, acaba por ser o melhor para a nossa evolução. E foi o que aconteceu, o coelho “agarra” o preguiça por trás e dá-lhe uma valente enrrabadela. A salvação não foi imediata mas na altura que o coelho morre atropelado já o preguiça vivia o presente sem pensar no passado e projectando sempre o futuro.

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

Prós e Contras

Todos sabemos que temos que andar com as calças folgadinhas caso seja preciso arregaçar à pressa. Ninguém tem dúvidas disso. O último programa “Prós e Contras” gravado em Angola foi um exemplo, diria escandaloso, disso mesmo. Foi degradante para a história da nossa nação as figuras que tivemos que fazer. Pelo menos eu, ainda tenho orgulho de dizer que sou Português e não queria de maneira nenhuma deixar de o ter. O jornalista Rosa Mendes que tentou mostrar a vergonha de uma nação, tornou o caso mais vergonhoso ainda por ESTE motivo! Mas nada como histórias pessoais, também elas vergonhosas, para apaziguar a alma dos inconformados - Já me tinha acontecido, tentar salvar alguém de morrer afogado. A primeira vez e única, até este fim-de-semana que passou, foi no Gerês quando a dois metros da margem do rio o meu amigo de alcunha “Salmão”(de certeza que não foi pelos dotes de nadador que lhe puseram a alcunha, porque estes meninos nadam contra a corrente como ninguém) começa a esbracejar ...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

VAMOS TODOS FICAR BEM?

Uma forma bonita de elogiar um gago é dizer que "tem dificuldade em se despedir das palavras". Eu tenho dificuldade, não diria em me despedir, mas de aceitar algumas frases de motivação que por estas alturas abundam em todo o lado. "Vamos todos ficar bem!" e depois ao lado um arco-íris pintado, de preferência para criar mais impacto, pelo próprio filho. Mas que merda de frase é esta? Mas desde quando, mesmo sem esta pandemia, vão todos ficar bem? Eu, quando está tudo supostamente perfeito, muitas das vezes não estou bem. Sabem o significado da palavra "todos"? Claro que não vamos todos ficar bem. Posso estar aqui a cometer alguma inconfidência, mas vai morrer mais gente. Isso é certo. E há famílias desesperadas em todo o mundo e claro que os mais pobres serão sempre os mais desfavorecidos. Em Angola, que é um País que ainda acompanho de perto, pedem para a população ficar em casa. Já foram ao Cazenga ou ao Sabinzanga? Em princípio não, mas para vos tentar ...