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O meu cão é que abana o rabo!

Eu não dou muito ao meu semelhante e o que recebo é sempre mais do que o dobro do que mereço. Por isso a minha desilusão com o próximo é sempre nula. Só me lamento quando me obrigam a ter trabalho.

Coisas simples apaixonam-me e as raridades ofuscam-me – Detesto ouro, odeio diamantes, e não tenho sonhos de ilhas desertas. Gosto de companhia, gosto de um abraço, de um beijo, de um aperto, de estar perto.
Gosto de um berro efectivo mas não gosto de berrarias.
Detesto discussões parvas e quando discuto entro neste circo.
Hoje sou eu, amanhã sou outro… e depois outro, outro e ainda mais outro. Os heterónimos do Pessoa são de toda a gente. Ninguém é alguém verdadeiramente. Somos mil e uma coisas e não somos coisa alguma. Hoje não sou o que já fui. Num amanhã não serei nada.
Se me disserem que “sou assim ou assado” ou comigo as “coisas são desta maneira” é uma grande mentira. Já reagi de diferentes maneiras a uma sopa quente - O meu cão é que abana sempre o rabo quando me vê chegar.

Se quero chorar, choro. Se parecer mal, admiro quem se esteja a borrifar para isso. Adoro gente que é gente de verdade. Essas são as raridades que me apaixonam. A vida é longa para os sábios e curta para os indignados (sem considerar qualquer catástrofe).
Gosto da igualdade. Não me revejo em discursos de “méritos” porque têm sempre jogos sujos pelo meio. Diria que sou de esquerda. Da verdadeira.

Não gosto do trabalho mas sou obrigado a gostar do dinheiro. Não gosto do podre, do mau cheiro, de baratas, de gafanhotos, de ricos desdentados…

Para o Universo de nada vale o que não gosto. E para mim de nada vale a imensidão do Universo porque estarei sempre preso numa pequena caixa.

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.