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Quem tem medo? Eu não !




Admito que desde criança, nunca fui um rapaz que simpatizasse muito com a bicharada. Lembro-me que a primeira vez que peguei num gafanhoto, que é dos insectos que mais admiro, assim como as baratas, principalmente as voadoras, que as acho simplesmente fascinantes, eu estava com mais medo que ele. Mas peguei e simulei uma brincadeira, parva, mas que tinha que ser feita para disfarçar uma falha na minha masculinidade, e corri para uma colega minha a fingir que a estava a aterrorizar, e na verdade estava, não só a ela, mas só eu sabia disso. Admito que para um homem não fica bem ter qualquer tipo de receio, de que bicho seja, mas em compensação sempre tive voz grossa e uma aptidão para não gostar de bonecas.
Recordo com saudade a minha infância assim como, imagino eu, qualquer um de vocês. Naquela altura não era previsível que o tempo passasse, pelo menos com a rapidez que agora, a esta distância, temos a sensação que ele passou. E passa rápido, como um foguete que nos escapa das mãos sem o podermos agarrar. Era bom que em certas alturas disséssemos ao tempo “espera aí, agora acalmas um pouco, que me está a saber pela vida este bocadinho”.
Mas, como tudo o que é bom, não nos cabe dizer por quanto tempo deve permanecer, resta-nos, a nós, miseráveis seres que pensamos ser gigantes, nesta imensidão que é o Universo, aproveitar caladinhos, sem dar nas vistas, o que nos é oferecido pela mão sagrada.

O meu fim-de-semana foi diferente, para melhor, porque não é só na infância que há bons momentos, mas vocês já devem desconfiar disso, e aproveito para agradecer à Vera Saragaço que teve o trabalho de organizar esta estadia na Roça das Mangueiras. Não vos aconselho a pesquisarem este sitio no Google, porque vão ficar com inveja, como eu ficaria, e como pecado mortal não seria bom, a duas ou três semanas do Natal, algum de nós ficar pelo caminho.

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.