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A IMPORTÂNCIA DE CONTAR UMA HISTÓRIA BEM CURTINHA

Às vezes é preciso algum esforço para se ver o óbvio. As histórias que todos nós contamos num grupo de amigos, nas empresas onde trabalhamos, ou numa esquina com um desconhecido, têm de ser, cada vez mais, sucintas e objectivas. Ninguém tem tempo, ou paciência, para grandes floreados ou retóricas de promissores oradores. Se queremos contar que fomos ao pão e que pelo caminho encontramos o Manuel, que nos disse que era muito provável que ele ia ficar desempregado devido à empresa, onde trabalha há 20 anos, estar sem os habituais clientes que optam hoje em dia por comprar os produtos via internet . O melhor, sugiro eu, é que primeiramente perguntemos, a quem vamos contar a história, se conhece o Manuel. Se não conhecer nem vale a pena avançar com a história. Caso o nosso passivo, mas impaciente, ouvinte conheça, então poderemos avançar mais um passo. Mas tem de ser rápido porque não o podemos, nem o queremos, perder com coisas superficiais. O melhor é nem dizer que íamos ao pão quando nos deparámos com o Manuel. Isso pode levar-nos a pormenores desnecessários. Passemos logo ao ataque: « O Manuel vai ficar desempregado». Reparem que aqui, com a pressa de contarmos a nossa história, já estamos a deturpar o que nos foi dito pelo próprio Manuel. E ele disse-nos que “provavelmente” ia ficar desempregado. Não nos deu a certeza absoluta. Mas, e por sorte, contemos com que isso realmente venha a acontecer - a desgraça do Manuel poderá nos dar alguma credibilidade. Resumindo: Já conseguimos dizer que o Manuel perdeu o emprego e a amável pessoa que nos ouve continua inclinada para nós, o que demonstra interesse, e com os olhos nitidamente a dizer que temos que ser assertivos. Resta-nos agora escolher se queremos ou não justificar a causa do “provável” ou, com sorte, desemprego. Muita informação, como todos sabemos, poderá ser fatal. Por isso escolho, por agora, não vos contar a vocês, amáveis e fieis leitores, o desenrolar desta hipotética conversa. Talvez numa próxima vez e se tiverem tempo.

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

VAMOS TODOS FICAR BEM?

Uma forma bonita de elogiar um gago é dizer que "tem dificuldade em se despedir das palavras". Eu tenho dificuldade, não diria em me despedir, mas de aceitar algumas frases de motivação que por estas alturas abundam em todo o lado. "Vamos todos ficar bem!" e depois ao lado um arco-íris pintado, de preferência para criar mais impacto, pelo próprio filho. Mas que merda de frase é esta? Mas desde quando, mesmo sem esta pandemia, vão todos ficar bem? Eu, quando está tudo supostamente perfeito, muitas das vezes não estou bem. Sabem o significado da palavra "todos"? Claro que não vamos todos ficar bem. Posso estar aqui a cometer alguma inconfidência, mas vai morrer mais gente. Isso é certo. E há famílias desesperadas em todo o mundo e claro que os mais pobres serão sempre os mais desfavorecidos. Em Angola, que é um País que ainda acompanho de perto, pedem para a população ficar em casa. Já foram ao Cazenga ou ao Sabinzanga? Em princípio não, mas para vos tentar ...

Morreu

É tão bom estar de volta, como seria se continuasse calado. No entanto achei por bem acrescentar umas linhas. Somente um desabafo em dias menos solarengos. Gosto de gostar de pessoas. Parece fácil, mas não é. Cada vez gosto mais e menos depende de quem estejamos a falar. O meu Pai faleceu. Nada que eu possa escreve servirá de homenagem ao que ele foi. Foi um Pai. E um Pai que se perdeu para sempre. Não voltarei a ter um Pai. O fim de um grande homem como não vejo nos que conheço. Conheço muitos e poucos são verdadeiros homens e os que o são, não são como o meu Pai. Acabou. Diria que foi um fim triste como são os de todos que envelhecem neste País. Não fazemos nada para melhorar a velhice dos outros e estaremos de mãos atadas quando acharmos que temos o direito e deveriam melhorar a nossa própria velhice. Se lá chegarmos ouviremos dizer dos mais novos que tivemos sorte em lá chegar e que somos uns privilegiados por isso. Concordaria se vivessemos no passado ou do passado. Vivemos cada d...