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10 MANEIRAS DE GANHAR TEMPO

Daí a 5 minutos ia-me encontrar com uma pessoa idosa. Desejaria que fosse rápida a conversa para me despachar e ir à minha vida. Quando o vejo ao longe a cambalear, barba mal feita, com sérias dificuldades em se locomover, pescoço torto e parecia que vinha perdido. Ele estava no lar já há alguns anos e aquele ar de quem não sabe onde está agoniou-me. Finalmente chegou ao pé de mim e pediu-me a única coisa que eu não lhe queria dar: tempo. Pegou-me no braço e obrigou-me a sentar e foi direito ao assunto como um relâmpago num dia de céu limpo – já tiveste alguém próximo que se suicidou?
Eu disse que sim e não querendo muito desenvolver o tema até porque ainda estava agarrado ao “meu tempo” que me estava a ser roubado. O senhor baixou a cabeça e começou a explicar que já tinha perdido alguns alunos por se terem suicidado e o que mais o angustiava era o facto de não ter a certeza que tinha feito de tudo para que isso não acontecesse. De não ter previsto e mais dramático ainda, nem sequer ter desconfiado. A relação de um professor/alunos, explicava-me ele, é das mais importantes que teve na vida. Para além das inúmeras matérias que era obrigado a despejar, e muitas delas que não lhe faziam o mínimo sentido, sempre teve o cuidado de dar tempo ao aluno para falar, para dar a sua opinião, para ele próprio se ouvir. Ainda assim o seu maior crime foi de não ter conseguido dar esperança a esses jovens.
- Que lhes deixamos como visão? O que lhes oferecemos como perspectiva de futuro? Esperança é preciso para todos - continuou ele –principalmente para pessoas com a minha idade. Os meus melhores alunos não foram para a política. A política tornou-se um refúgio dos medíocres. Os melhores alimentam-se, nos dias de hoje, por dinheiro. E eles não precisam de roubar porque têm a inteligência para a influenciar os outros a entregarem-lhes de livre vontade. Claramente este não é o caminho mas nunca tive a magnitude de o poder explicar.
Quando eu fiquei com a disponibilidade de ficar ali a tarde toda levantou-se e pediu-me desculpa por ter tomado o meu precioso tempo.

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.