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PEQUENAS COISAS



Quando alguém me diz que a partir daquele momento começou a dar importância às pequenas coisas da vida, facilmente percebemos que alguma coisa – e aqui podemos imaginar que foi alguma coisa grande – não correu bem. Dar importância a pequenas coisas não revela um despertar para o mundo, uma nova consciência, uma maneira nova de viver, mas sim uma obrigação de dizermos que nem tudo foi mau. As pequenas coisas, serão sempre pequenas e nós colocamos uma lupa gigantesca para mostrar ao próximo «Vês, olha que bonito!»
Quem não sabe que um caracol em cima de uma folha pode ter o seu encanto? Depende da perspectiva e da disponibilidade que cada um tem para conseguir ver o que nos rodeia, poderão pensar os leitores. Não passa de um caracol em cima de uma folha, mas se nesse momento o sol sair por detrás de uma nuvem e iluminar aquele pequeno cenário, tendemos a reforçar que estamos perante uma pequena coisa grandiosa. Eu reconheço a importância do Sol como poucos: Africa mostrou-me isso durante 7 anos e o sol iluminava, para além de caracóis, tudo o que não estava à sombra. Se fossemos realmente seres vocacionados para contemplar todas as pequenas coisas sobre o escrutínio do Sol, tornar-se-ia fastidioso ao ponto de rezarmos para que a noite chegasse.
No outro dia a Porteira do meu prédio, entre um sorriso amargo, também afirmava com todas as suas forças «(…) ao menos sei com quem posso contar!» Parece-me obvio que alguém ali, segundo a senhora Cremilde, não se deixava iluminar pelo sol. Mas suspeitamos que a senhora tinha, pelo menos, uma pessoa que poderia contar. E se assim for, ter apenas e só uma pessoa que podemos contar, efectivamente é mau. E não me venham com a lição que «é melhor um pássaro na mão, do que dois a voar» Eu também gosto de pequenas coisas. Mas só ter uma? Também não me parece justo.