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OS FILHOS DAS VACAS



A vaca dá leite e passados tantos anos parece que descobriram que não é bom para nós. Diria que é normal porque a mulher também dá leite e, como neste caso, o leite é exclusivo para os seus descendentes. Não me parecia lógico andar a explorar o leite da mulher e comercializar pacotes de litro com um rótulo de uma mulher num campo verdejante. Por isso há que respeitar também as vacas e os próprios bezerros que, tal como nós filhos de mães portadoras de leite, têm todo o direito a serem alimentados em exclusivo pelas suas progenitoras.
O mercado rapidamente adaptou-se a estas novas exigências e hoje em dia há uma panóplia de leites: Coco, soja, amêndoas e por aí fora. Os benefícios para a saúde destes leites estão a ser explorados por estudos, provavelmente, pagos pelas próprias marcas e produtoras destes leites. O que é importante em qualquer estudo, assim como em qualquer notícia, é contar uma história que pareça credível e que vá ao encontro do benefício próprio. O fazer bem à saúde é relativo e para quem tem pena das vacas por serem exploradas tem aqui uma oportunidade de oiro - Aí sim podemos fazer a diferença. Eu por exemplo não bebo leite de vaca há muitos anos. Não pelas vacas, que merecem todo o meu respeito, mas porque sou altamente alérgico à lactose. Em relação aos outros leites o meu primo levantou uma questão pertinente. Para ele é difícil perceber como extraem o leite de elementos que não são possuidores de tetas. Convido-vos leitores a imaginarem, por exemplo, uma amêndoa a ser ordenhada e farão a mesma cara que eu fiz com esta excelente observação. Concluindo, até porque este texto merece, cabe a cada um de nós pensar um pouco sobre o leite que damos a beber aos nossos filhos. Não é só proibir os doces e os fritos mas sermos nós próprios críticos ao ponto de nos questionarmos de qual o leite que devemos consumir. As vacas já merecem descanso e os seus filhos agradecem.

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.