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Urgências quem as não tem?

Normalmente, cada cão tem o seu dono e depois existem os que foram abandonados.
Isto para dizer, que é perfeitamente natural eu não criar grandes empatias nos primeiros encontros com as pessoas. Sou assim, uma besta, e parece que com os anos não melhoro muito.
Este fim-de-semana lá fui “obrigado” a conhecer um casal e o seu filho Gabriel.
O puto, e começo pelas coisas boas, era um espectáculo: Agarrado ao seu Ipad, não chateou a noite inteira. Ficou ali, “teca, teca, teca…” e foi de um sossego, que eu diria, aterrador. Verdade seja dita que o puto ainda tentou uma ou duas vezes falar, mas o Pai rapidamente o pôs no lugar “ Está calado, não vês que eu estou a falar com as pessoas!” Achei extraordinário a boa educação do miúdo que respeitou e passou o resto da noite a fuzilar pessoas enquanto eu admirava, de soslaio, tal feito! O jogo, ao que me parecia, era de Zombies e o Gabriel que tinha uma moto serra na mão, não perdoava a quem lhe passava pelo caminho! Até me admirou o Pai falar daquela maneira para ele. Pareceu-me que o puto tinha carácter e mais tarde ou mais cedo, certamente, que preparará a vingança!
O Pai deste extraordinário rapaz é daquelas pessoas que enquanto bebe desalmadamente, conta histórias de outros dias que ainda bebeu mais desalmadamente!
Houve um dia, e reparem bem neste feito, que se sentou a almoçar, num restaurante, e só de lá saiu era por volta das onze da noite! Bebeu uns 7 ou 8 gins, de seguida atacou no vinho branco, depois passou para o vinho tinto, voltou ao vinho branco e, tomem nota, acabou a noite a beber whisky!
Eu juro que eu estive quase para me levantar, subir acima da mesa e bater palmas desalmadamente… mas depois achei melhor não criar um impacto tão positivo e simplesmente esbocei uma cara de pura e sincera admiração!
A noite, infelizmente, acabou mais cedo do que seria previsto… Eu não forcei nada para que esta magnifica noite acabasse abruptamente, mas quando o meu telefone toca para urgências eu sou incapaz de deixar o meu semelhante na mão… “Estou Simão, estás sem gasolina no meio da samba? É pá, dá-me só uns minutos que eu vou-me já por a caminho!”

Comentários

  1. Espero que antes de saíres te tenhas certificado que o miúdo tinha o carregador do IPAD, não vá o Diabo tece-las…

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.