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SEM UM OLHO by Eva dos Anões

Um gago sem um olho, será sempre um gado sem um olho! E dizer-lhe “coitadinho não tem um olho” não resolve grande coisa. Primeiro porque ele sabe perfeitamente que não tem um olho, e o “coitadinho” também não faz com que ele veja melhor. A pena alheia, e falo por mim, faz-me urticária e da forte. “Coitadinho o caralho” é sempre o que me apetece dizer.
Mas eu não escolhi ao acaso ser um gago que não tem um olho. Vou-vos confessar uma coisa, e fica só entre nós até porque anda por aí muita gente sensível e sempre com o dedo da moral a apontar para tudo o que mexe, mas eu não gosto de gagos. Não vale a pena dizer de outra maneira. Eu sei que eles não têm a culpa de ter nascido assim, mas eu também não a tenho, e por isso não consigo fazer amizade com um gago. É-me difícil manter uma conversa. Eu sei que a todos nós deve ser difícil, mas eu confesso que para mim não dá. Tenho um trauma é verdade. Nunca fui meiga no trato porque tenho uma dificuldade enorme em fingir e desde que uma vez um gago, não vou dizer o nome porque há gente capaz de tudo, inclusive de ler textos deste espaço, cismou que se devia confessar a mim. Se calhar porque sou uma gaja, não sei! Mas aquilo foi um filme de terror. Ele queria-me dizer, soube mais tarde por uma amiga minha, que estava apaixonado pela Raquel. Nos primeiros cinco minutos ele não disse mais do que 3 palavras. Com os nervos e quase de lágrimas nos olhos seguiram-se mais dez minutos fatídicos para a minha paciência e acabei por lhe virar costas quando o ranho lhe começou a cair pela boca abaixo. Nunca mais falou comigo a partir desse momento. Certamente com vergonha e desiludido por me ter escolhido a mim para desabafar. Mas, sinceramente, acho que foi melhor para todos. Até para os Gagos que ainda não conheço.


Eva dos Anões 

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.