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Eu de vocês já espero tudo!

Ontem perguntaram-me qual era o caminho que eu queria seguir para a minha vida. Eu respondi que era este mesmo que eu estava a percorrer. Sem a certeza de nada e com algumas, poucas, verdades absolutas. Uma das verdades absolutas, que me seguirá para a vida, é que eu gosto mais de umas pessoas que outras. Parece impossível mas é verdade. E se, por vezes, tenho pouca paciência para pessoas que gosto, imaginem para as que não gosto. Digo isto porque à primeira vista parece-me que não é tão simples assim para toda a gente. Dá-me a sensação que todos se adoram uns aos outros. Até porque fazem questão de mostrar um ar interessado ao assunto mais absurdo e ridículo que o nosso semelhante possa estar a dizer. Dou-vos um exemplo, não gosto de criar falsos paradigmas. No outro dia uma besta conseguiu estar mais de uma hora a debitar conhecimento sobre a criação de robalos e douradas em cativeiro. Acredito que possa ser um tema interessante durante 5 ou 10 minutos. Ao ponto de percebermos, de um modo geral, como tudo funciona. Não queremos, como é óbvio, saber que o Opérculo tem uma mancha escura e dois espinhos, ou que a espécie robalo-flecha é a maior da família com 1,2 m de comprimento total, e 25 quilos. Quando entramos no absurdo do detalhe da informação creio que maça quem está do outro lado. E eu era um dos que estava do outro lado. Claro que nem por sonhos aguentei metade da história. Eu sei que se deve ouvir as pessoas. Ainda para mais nos dias de hoje, em que tudo não passa de uma centrifugadora que leva tudo à sua volta. O bom e o mau. Eu sei disso e eu gosto de ouvir o meu semelhante. Mas não sobre robalos e douradas… e muitos outros temas, confesso. Mas não precisamos de gostar todos da mesma coisa. Eu por exemplo conseguia estar aqui, a falar sobre filtros de água, durante umas cinco horas. Estão interessados? Se calhar até estão, mas eu de vocês já espero tudo!

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.