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Rim

O meu amigo Fozzy foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, e não digo que foi operado porque este homem é de grande nível, para lhe retirarem um dos rins. Pois, não convinha que lhe tirassem os dois. Bem, mas meio alarmado, contou-me o que se passava - Um dos rins, pelo que os médicos diziam, não estava a funcionar e pressupunham que nunca tivesse desempenhado as suas funções. De maneira que a melhor coisa a fazer era tirar este calão dalí para fora.

Como eu não posso ter tudo (sou hipocondríaco de ultimo grau) tenho um outro amigo, de seu nome Vitor Castro, os amigos chamam-lhe Vitinha, que nasceu sem um rim e só o soube há poucos anos atrás, quando lhe fizeram uma “revisão” geral. Este rapaz de 42 anos, para além de ser um bom amigo, bebe como se o mundo fosse acabar amanhã. E eu percebo-o, porque nunca se sabe! Mas sabemos, que os rins, situam-se atrás do peritoneo… logo aí é preciso ter algum respeito por eles, e depois, agora em linguagem mais brejeira (ao meu nível portanto), estes meninos tem como função filtrar toda a porcaria que bebemos para uma bela mijadela. Tendo o Vitinha só um rim, eu imagino-o como uma espécie de um sujeito que é corrector de uma bolsa de Nova Iorque - Não tem “pano para mangas”.

Isto tudo à conclusão que os bons exemplos são para se seguir e não estamos a falar dos tipos que só têm um rim, não vá a malta começar a correr para o hospital a gritar “tirem-me um rim, tirem-me um rim…” mas sim, de heroicamente sabermos o que devemos fazer com o que temos, neste caso dar bastante trabalho/distracção a um órgão que acabou de perder o seu semelhante.

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.