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Fagulhas

A todos um belíssimo Natal e um ainda melhor ano novo. Poderão pensar que é cedo de mais, mas o menino vai de férias e não quero de maneira nenhuma deixar de ser, como sempre fui, educado. E bem preciso ir de férias porque o trabalho tem-me dado que fazer.

De resto, queria antes de me ir embora dar uma palavra amiga a um grande amigo. Ele considera-me o seu melhor amigo da América do Sul visto que não conhece lá mais ninguém. E eu retribuo com esta pequena homenagem, que bem precisa, porque está à rasca de um braço e poderia ter sido mais grave a consequência do enorme acto heróico que teve na noite de sábado: Estampou-se contra uma mesa ao se lançar que nem um super-homem para matar uma barata que ameaçava toda uma festa de anos que, só por si, já não estava a correr bem. Não matou o inimigo mas todo o cenário para o fazer deixou uma onda de boa disposição que só foi estragada por causa de um outro amigo, melhor, de uma outra besta, que decidiu embebedar, às nove da noite, o aniversariante com chuvas de shots de Cachaça. Poderia ser engraçado, e para ele foi, se no outro dia todos acordássemos com uma enorme ressaca e não nos lembrássemos de metade do que aconteceu. Que giro que é quando as festas se resumem a fagulhas de alguma coisa que não se sabe bem o que foi! Ahhhh, fazem-me lembrar os belos concertos que a malta ia com verdadeiros comas alcoólicos onde a única lembrança, no dia seguinte, era o bilhete de entrada que ficava todo amachucado no bolso de trás das calças de ganga. Bons e velhos tempos em que tudo era nada e o nada poderia ser tudo.

Como podem ver termino este ano em beleza como se o mundo fosse verdejante e eu o coelhinho branco a saltar sobre ele.

Estaremos de volta em Janeiro que para mim é o mês mais bonito do ano!

TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

QUAL É A IDEIA?

Vejo muita gente a dizer as ideias dos outros ficando eles próprios sem saber quais são as suas próprias ideias. Quem não prestar a devida atenção fica com uma ideia errada da pessoa que partilha uma qualquer ideia. Acho, e isto é uma ideia minha, que precisamos ter a nossa própria ideia. Só assim teremos uma ideia de quem somos e de quem nos rodeia. Deixo aqui esta ideia que, confesso, poderá não ser minha, mas entre o alvoroço e o reboliço ninguém vai fazer puto ideia.