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Dunas

Poderia ser o título de uma canção inédita, mas o que me impressiona são os grãos de areia.
Naquela multidão não existe um que se sobressaia.
Já pensaram nisso?
Pelas vossas caras já vi que não. E fazem bem.

Ser diferente ou ser conhecido é uma das grandes ambições de muitas pessoas.
Eu incluo-me nesta grande percentagem.
Quer quem ser igual a toda a gente?
Queria ser diferente, mas não consigo. Pelo menos pelo mérito não chego lá. Já pensei em mil e uma maneiras e cheguei à conclusão que se toda a gente nasce com um dom, eu, quando essa benesse foi distribuída, deveria estar a dormir ou escondido numa gruta.
Já tentei pintar, fazer esculturas na areia, escrever poemas, sorrir para uma criança e até animar o Natal dos hospitais, mas não há maneira. Tudo o que faço sai torto e mal acabado. Se bem que faço umas ervilhas com ovos escalfados que é de comer e chorar por mais. É verdade que a minha mãe faz melhor, mas nas ervilhas acho que com treino, persistência e muito trabalho consigo superá-la.

Nestes tempos em que o que temos é bem mais importante do que aquilo que somos, e não me digam que vocês pensam de maneira diferente, achei por bem começar a amealhar caricas de cerveja. Já tenho 4 caricas de diferentes marcas, mas vou desistir.
Nunca tive paciência nem motivação para coleccionar o que quer que fosse. As minhas cadernetas se tivessem mais de 5 cromos já se podiam dar por contentes. Ainda me lembro que um dos meus irmãos, fazia colecção de latas de bebidas. Então, tínhamos o roupeiro com uma paisagem magnífica de latas empilhadas umas em cima das outras. Como em qualquer colecção, existe sempre uma das peças que é a jóia da coroa. Neste caso era uma lata antiga que tinha vindo de Espanha. Vejam bem a qualidade e a internacionalização desta colecção.
Foi aí que tive a certeza que coleccionar é uma coisa estúpida.
Mas eu também sou e continuo por aqui, por isso…

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

Prós e Contras

Todos sabemos que temos que andar com as calças folgadinhas caso seja preciso arregaçar à pressa. Ninguém tem dúvidas disso. O último programa “Prós e Contras” gravado em Angola foi um exemplo, diria escandaloso, disso mesmo. Foi degradante para a história da nossa nação as figuras que tivemos que fazer. Pelo menos eu, ainda tenho orgulho de dizer que sou Português e não queria de maneira nenhuma deixar de o ter. O jornalista Rosa Mendes que tentou mostrar a vergonha de uma nação, tornou o caso mais vergonhoso ainda por ESTE motivo! Mas nada como histórias pessoais, também elas vergonhosas, para apaziguar a alma dos inconformados - Já me tinha acontecido, tentar salvar alguém de morrer afogado. A primeira vez e única, até este fim-de-semana que passou, foi no Gerês quando a dois metros da margem do rio o meu amigo de alcunha “Salmão”(de certeza que não foi pelos dotes de nadador que lhe puseram a alcunha, porque estes meninos nadam contra a corrente como ninguém) começa a esbracejar ...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

VAMOS TODOS FICAR BEM?

Uma forma bonita de elogiar um gago é dizer que "tem dificuldade em se despedir das palavras". Eu tenho dificuldade, não diria em me despedir, mas de aceitar algumas frases de motivação que por estas alturas abundam em todo o lado. "Vamos todos ficar bem!" e depois ao lado um arco-íris pintado, de preferência para criar mais impacto, pelo próprio filho. Mas que merda de frase é esta? Mas desde quando, mesmo sem esta pandemia, vão todos ficar bem? Eu, quando está tudo supostamente perfeito, muitas das vezes não estou bem. Sabem o significado da palavra "todos"? Claro que não vamos todos ficar bem. Posso estar aqui a cometer alguma inconfidência, mas vai morrer mais gente. Isso é certo. E há famílias desesperadas em todo o mundo e claro que os mais pobres serão sempre os mais desfavorecidos. Em Angola, que é um País que ainda acompanho de perto, pedem para a população ficar em casa. Já foram ao Cazenga ou ao Sabinzanga? Em princípio não, mas para vos tentar ...