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Do estúpido ao masoquista

Faz hoje, precisamente, um ano e meio que parti de Portugal para conhecer a vida de emigrante.
Sem me alongar muito, porque não à paciência para tanta letra junta, posso dizer que o saldo é positivo.
Faltam precisamente 4 dias, para fazer mais uma visita à Tuga.
Das melhores sensações que tive na vida, uma delas, é sem dúvida, quando saímos do Aeroporto de Lisboa.
Aquele instante, em que já temos a mala de porão e a passo acelerado nos encaminhamos para a saída. É qualquer coisa de FENOMENAL!
Mais fenomenal ainda, é quando um funcionário do Aeroporto se lembra de ver a tua mala.
- Podia abrir a sua mala se faz o favor ?
- Com certeza ! – Disse eu, com a voz mais simpática que tinha para o momento.

Só se pode levar 2 volumes de tabaco, eu não sabia e levei 3 !
Como cada maço de tabaco aqui em Luanda é cerca de 1 Euro, todos aproveitam esse facto. Se calhar muitos, de forma abusiva.

- Então o Sr. não sabe que não pode trazer mais de 2 volumes ?
- Se soubesse não trazia 3 ! – A boa educação começou a fugir-me.
- Vou ter que chamar o meu superior, para resolver esta situação.

Passados 20 minutos, lá vem o superior com ar, lá está de superior, e imaginei eu que não viesse para simplificar as coisas.

- Isto é para consumo ou é para outro propósito?

Saltou-me a tampa.

- Não é para fumar, não senhor. Eu normalmente utilizo os cigarros para tempero, ou então, que também é muito bom, para ambientador!
Amigo, eu estou emigrado em Angola, e à cerca 5 meses que não venho a Portugal. Você sabe o que é isso ? Pergunta-me se o volume que trago a mais tem outro propósito que não o consumo. Eu estou ansioso por poder chegar ao pé da minha família e amigos. Que resposta simpática eu lhe posso dar ? Se quiser ficar com o volume, esteja à vontade.

Olhou para mim, tentou articular algumas palavras, e como qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, deixou-me sair sem fazer mais perguntas e com os 3 volumes.
A cor da minha mala de viagem é amarela.
Isto se calhar justifica alguma coisa.
Desta vez só levo 2 volumes.
Conto os dias para poder chegar a Lisboa.
Até ao meu regresso, fica a promessa que ninguém escreverá aqui nenhum texto.
O que é mau para os masoquistas que teimam em ler todos os Post!
Obrigado a todos (os masoquistas, claro)

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TEXTOS QUE ME ENTRISTECEM

CAIXAS

Desde muito cedo percebi que não gostava de caixas e de caixinhas. As pessoas têm tendência em organizar e agrupar as suas vidas em caixas. A primeira memória que eu tenho disso foi quando cheguei a uma festa de anos com os meus Pais, ainda era eu muito novo, e a minha Mãe vira-se para mim e diz “olha ali aqueles meninos que têm a tua idade, vai brincar com eles”. A lógica é a mesma de quando hoje em dia me dizem “convida o João e a Cristina, eles têm um filho da mesma idade que a tua”. Mas eu nem sequer gosto do João e a Cristina diz tudo o que lhe vem à cabeça. De início pode parecer giro, mas passados dez minutos era capaz de pendurar a Cristina pelos pés e suplicar a Deus que a levasse para junto dele. O que me preocupa é que a natureza permita que gente desta consiga procriar. “Mas sempre convivias um bocado e as crianças ficavam a brincar, só vos ia fazer bem”. Fazer bem? A quem? Não percebo esta necessidade de mostrar que conseguimos receber gente em nossa casa que não gostamos...

FAZIA TUDO

Eu espero sempre o pior das pessoas. Nunca fico à espera de qualquer espécie de bondade. Talvez porque seja aquilo que eu vejo em mim: pouca bondade disfarçada com alguma disponibilidade. Na minha cabeça tento camuflar tudo isto. Por isso me emociono e me espanto com pessoas genuinamente boas. Duvido sempre delas até ter absoluta certeza. Para mim, querem sempre algo em troca. Nenhum acto é por acaso. Quando as vejo a perder tempo com os outros, acho estranho. O mundo não é assim. Eu não sou assim. Eu trabalho porque recebo ordenado. Perco tempo em fazer comida porque tenho fome e gosto de comer. Tento fazer exercício porque sei que terei a compensação do esforço. Todos os meus actos têm como base uma recompensa. Conheci cedo a bondade. A dos meus Pais. Mas dos Pais é suposto haver bondade. Uma bondade obrigatória. O tal «coração fora do peito» que as pessoas dizem e que me irrita particularmente esta expressão. Mais tarde, já no secundário, conheci a bondade pura. Foi estranho. Muito ...

Que vida é esta?

A vida não vai acabar bem. Sabemos disso embora, por burrice, nos esqueçamos a todo o momento. Vamos morrer e na melhor das hipóteses quando formos velhinhos e rezando, desejando, pedindo e implorando que não soframos muito na decadência própria do avançar da idade. Na caminhada fazemos por esquecer que tudo é efémero. Tudo passa e não temos um décimo da importância que julgamos ter. As desilusões são um bálsamo para todas as vidas, elas mostram-nos a realidade. Estávamos iludidos. Estamos quase sempre iludidos. Parece que gostamos de viver dessa forma. Olhamos para os velhos como se fossem uma miragem, não nos colocamos na pele de quem tem o fim tão perto. Um fim que será miserável por todas as razões e mais algumas. Aos poucos se perde tudo e se fica sem nada. A cabeça não quer, teimosamente, acompanhar o definhar do corpo. Todas as ilusões do futuro não existem e a certeza da morte está ao virar da esquina. Metemo-los num lar e nas visitas tentamos apaziguar a tragédia que está ali ...

Prós e Contras

Todos sabemos que temos que andar com as calças folgadinhas caso seja preciso arregaçar à pressa. Ninguém tem dúvidas disso. O último programa “Prós e Contras” gravado em Angola foi um exemplo, diria escandaloso, disso mesmo. Foi degradante para a história da nossa nação as figuras que tivemos que fazer. Pelo menos eu, ainda tenho orgulho de dizer que sou Português e não queria de maneira nenhuma deixar de o ter. O jornalista Rosa Mendes que tentou mostrar a vergonha de uma nação, tornou o caso mais vergonhoso ainda por ESTE motivo! Mas nada como histórias pessoais, também elas vergonhosas, para apaziguar a alma dos inconformados - Já me tinha acontecido, tentar salvar alguém de morrer afogado. A primeira vez e única, até este fim-de-semana que passou, foi no Gerês quando a dois metros da margem do rio o meu amigo de alcunha “Salmão”(de certeza que não foi pelos dotes de nadador que lhe puseram a alcunha, porque estes meninos nadam contra a corrente como ninguém) começa a esbracejar ...